Que escola é melhor? Uma questão sem resposta certa.

A escolha deve ser feita em família, respeitando os valores e o estilo de pais e filhos, recomendam especialistas

Tatiana Cavalcanti
ESPECIAL PARAOESTADO

 
Mudar o filho de escola não é uma decisão simples. Para fazer essa escolha, muitos pais tomam por base o desempenho dos colégios no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que foi divulgado no início de agosto pelo Ministério da Educação(MEC). Para esta
reportagem foi feito um recorte com as 50 escolas de São Paulo mais bem avaliadas na
prova, excluindo aquelas em que menos de 61 alunos participaram no ano passado – veja
nas páginas ao lado e nas seguintes cinco tabelas, com os dez colégios à frente em cada região da capital paulista.
A classificação no exame nacional pode ser um dos critérios levados em conta pela família.
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Zygmunt Bauman: “Há uma crise de atenção”

SEGUNDA-FEIRA, 14 DE SETEMBRO DE 2015 – O GLOBO

por Bruno Alfano/O Globo – 14.09.2015

 

Uma busca no Google com os termos “modernidade líquida” rende 187 mil resultados em 0,34 segundo. São, todos eles, “fragmentos de conhecimento”, na visão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que discursou neste sábado no evento Educação 360.

O pensador defendeu que os educadores precisam estimular determinadas características que ficam prejudicadas com a utilização da tecnologia, “paciência, atenção e a habilidade de ocupar esse local estável, sólido, no mundo que está em constante movimento. É preciso trabalhar a capacidade de se manter focado.” Leia mais abaixo:

— A educação é vítima da modernidade líquida, que é um conceito meu. O pensamento está sendo influenciado pela tecnologia. Há uma crise de atenção, por exemplo. Concentrar-se e se dedicar por um longo tempo é uma questão muito importante. Somos cada vez menos capazes de fazer isso da forma correta — disse o pensador. — Isso se aplica aos jovens, em grande parte. Os professores reclamam porque eles não conseguem lidar com isso. Até mesmo um artigo que você peça para a próxima aula eles não conseguem ler. Buscam citações, passagens, pedaços.

Como o próprio Bauman mencionou, a modernidade líquida — definida nos resultados do Google como a época em que vivemos, caracterizada por “volatilidade” , “incerteza” e “insegurança” — norteou as obras do filósofo; ele escreveu cerca de 30 livros apenas em torno dessa maneira de enxergar a contemporaneidade.

— Não há como contestar que a internet nos trouxe grandes vantagens. A facilidade de acesso à informação, a facilidade com que podemos ignorar as distâncias… Lembro-me de que, quando era jovem, passava muito tempo na biblioteca tentando ler cem livros para encontrar um pedacinho de informação de que precisava. Agora, basta pedir para o Google. Em décimos de segundo ele dá milhares de respostas. Um problema foi eliminado: nós não precisamos passar horas na biblioteca. Mas há um novo problema. Como vou compreender essas milhares de respostas? — questionou Bauman, logo recorrendo à Grécia Antiga para para continuar. — Só agora, idoso, consegui entender Sócrates: “Só sei que nada sei”.

Há ainda, na visão de Bauman, outras crises que chegam com a internet e precisam ser superadas. O filósofo defende que vivemos com cada vez menos paciência, pela quantidade de informação que recebemos ao mesmo tempo. E, quando não temos isso, o resultado é a irritação.

— Se demoramos mais de um minuto para acessar a internet quando ligamos o computador, ficamos furiosos. Um minuto só! Nosso limiar de paciência diminuiu. As informações mais bem-sucedidas, que têm mais probabilidade de serem consumidas, são apenas pedaços — diz o polonês. — Outra coisa é a persistência. Conseguir algo contém em si um número de fracassos que faz com que você perca tempo e tenha que recomeçar do zero. E isso é muito complicado. Não é fácil manter essa persistência nesse ambiente com tanto ruído e tantas informações que fluem ao mesmo tempo de todos os lados.

Todo esse novo cenário, explicou o pensador à plateia de educadores, desafia e transforma a posição secular do docente. Para Bauman, “não há como voltar à situação em que o professor é o único conhecedor, a única fonte, o único guia”. E dá caminhos:

— Não há como conceber a sociedade do futuro sem tecnologia. Então, se não pode vencê-la, una-se a ela. Tente contrabalancear o impacto negativo, como a crise da atenção, da persistência e de paciência. É preciso ter determinadas qualidades se você deseja construir conhecimento e não só agregá-lo: paciência, atenção e a habilidade de ocupar esse local estável, sólido, no mundo que está em constante movimento. É preciso trabalhar a capacidade de se manter focado.

 

Educação desigual

 

Hoje, de acordo com o filósofo, a educação reproduz privilégios em vez de aperfeiçoar a sociedade. Ele lembra que, nos EUA, 70% dos alunos na universidade vêm das classes mais altas, enquanto só 3% são das camadas de renda mais baixa. Segundo Bauman, essa é “uma forma de reafirmar a desigualdade social”, tema do livro “A riqueza de poucos favorece a todos nós?”, o mais recente lançamento (no mês passado) do escritor no Brasil.

— Uma das tarefas da educação é conferir a todas as pessoas que tenham talento a possibilidade de adquirir conhecimento para que isso acabe tendo um uso criativo para a sociedade. Mas esse objetivo não está sendo perseguido em muitos lugares. Na Grã-Bretanha, os preços, em vez de diminuírem para as pessoas com menos dinheiro, vão subindo. E cada vez menos pais têm a possibilidade de economizar a quantia necessária para seus filhos cursarem a universidade.

O problema, segundo Bauman, é que a educação está pressionada pela política e pelos interesses corporativos. E isso, explica ele, se reflete na mente do estudante. O polonês critica o fato de os alunos escolherem a área de estudos baseados “no fato de se vão conseguir emprego ou não”.

— Se você quer conhecimentos especializados, que são as condições para um bom emprego, precisa estudar quatro ou cinco anos, e isso requer muito esforço. Mas, se você está sendo guiado pelo atual estado de coisas, tudo vai mudar nesse tempo de estudo. E você vai perceber que não vai conseguir encontrar um uso rentável para o tipo de
qualificação e habilidade que adquiriu nesses anos de trabalho árduo na faculdade — argumenta.

Mesmo após toda essa lista de desafios, a mensagem que o dono de uma das mais influentes mentes no mundo deixou para o auditório na noite de ontem foi de pura esperança:

— Educar, senhoras e senhores, é fazer um investimento nos próximos cem anos.

(via O Globo)

Ensino técnico ainda enfrenta preconceito

SEXTA-FEIRA, 4 DE SETEMBRO DE 2015 – O ESTADO DE S.PAULO

ÁLVARO CAMPOS

Especialistas defendem maior proximidade entre escolas técnicas e mercado de trabalho e maior flexibilidade nos currículos

A educação profissional no Brasil cresceu significativamente nos últimos anos graças, em parte, ao Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que, mais do que oferecer bolsas, estruturou a área. Mesmo assim, ainda é preciso vencer um velho preconceito arraigado na sociedade de que esse tipo de formação seria inferior ao ensino superior clássico das universidades.

Especialistas reunidos no evento Fóruns Estadão Brasil Competitivo – Educação para o Trabalho, realizado com o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI), na terça-feira, citaram a necessidade de maior aproximação entre escolas técnicas e mercado de trabalho e de maior flexibilidade dos currículos, já que o rápido avanço tecnológico altera as competências exigidas dos profissionais.

O secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação , Marcelo Feres, lembrou que o ensino técnico no Brasil tem quase 100 anos de história, tendo começado no início do século 20 com os liceus profissionalizantes. Em 2014, foram 1,79 milhão de matrículas nesse tipo de curso, um crescimento de 23,6% ante o ano anterior, sendo 52% na rede pública.

Segundo ele, a meta 11 do Plano Nacional de Educação, que prevê triplicar o ensino profissional até 2024, é ousada, mas reflete um desejo da sociedade, que passou a dar mais valor a esse tipo de formação. “O alcance dessa meta depende de esforços conjuntos do governo, setor produtivo e sociedade”, comentou. Para Feres, isso não pode ser feito de forma muito acelerada, caso contrário não seria sustentável. “Temos de equilibrar o crescimento de matrículas com a qualidade dos cursos. Esse é o caminho que estamos priorizando.”

Articulação. Feres lembrou que um dos desafios é implementar um sistema nacional de avaliação da educação profissional, já que o que existe atualmente são análises concentradas em instituições e cursos. O secretário defendeu também uma maior articulação entre instituições de ensino e o setor produtivo. “É preciso romper com a cultura academicista essa dualidade do processo de formação entre fazer e pensar.”

Já o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi, afirmou que a qualidade da educação no Brasil está mais perto da África do que dos países desenvolvidos. Ele apontou que só recentemente o País atingiu um tempo médio de escolaridade de 7,5 anos, o que significa 100 anos de atraso em relação aos países desenvolvidos, que registraram esse mesmo número no início do século passado.

O especialista comentou ainda que, enquanto na Áustria 76% dos jovens fazem um curso profissionalizante concomitantemente com o ensino tradicional, no Japão são 70% e, na Alemanha, 50%. Já no Brasil, esse índice está em torno de 8,5%. “Mais de 80% dos jovens no Brasil não vão para as universidades. É razoável não instrumentalizar essa juventude para o mercado de trabalho? Isso causa impacto na geração de riqueza da sociedade brasileira, na produtividade do trabalho.”

Debate. Iuri Pitta (Estado), André Portela Souza (FGV), Claudia Costin (Banco Mundial) e Fernando Tourinho (Robert Bosch) discutem a importância do ensino técnico no Brasil   Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO

É preciso remover os preconceitos em relação à educação profissional, segundo Lucchesi, e isso pode ser um contraponto à grande participação das ciências humanas no ensino superior do Brasil. Segundo ele, de cada 100 graduados nas universidades brasileiras, só cinco são engenheiros, um dos menores níveis do mundo.

A diretora global de Educação do Banco Mundial, Claudia Costin, tem uma visão semelhante sobre o ensino técnico no Brasil. Para ela, é preciso repensar o sistema. “A demanda mundial está migrando para competências não rotineiras. O processo de automatização é enorme, a robotização vai fazer com que muitas profissões desapareçam. Se o jovem não tiver capacidade de se reprogramar, as coisas vão se complicar. ”

Claudia apresentou uma visão um pouco mais otimista que os outros palestrantes. Segundo ela, a taxa de conclusão do ensino básico nos últimos 15 anos teve grandes avanços e, mesmo em termos de qualidade, as coisas melhoraram. A especialista citou o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, conhecido pela sigla Pisa, que mostra que o Brasil foi o País que mais avançou em matemática de 2003 a 2012, apesar de ainda ter pontuação baixa.

“O Brasil está imerso numa crise, mas precisamos ver além. Às vezes, pensamos muito na conjuntura e esquecemos que o País está construindo coisas para o futuro”, comentou, citando como exemplo de caso de sucesso a feira WorldSkills, realizada no mês passado, na qual o Brasil foi o maior medalhista.

Lucchesi apontou que um dos argumentos para vencer o preconceito com o ensino técnico e atrair mais jovens pode ser via salários. Segundo pesquisas, o pagamento inicial médio de um profissional técnico é de R$ 2 mil, chegando a R$ 6 mil em dez anos. “Isso já é competitivo com o ensino superior, e o jovem começa a vida profissional antes”, apontou. É uma forma também de contemplar a classe C, onde muitos adolescentes não têm condições de fazer cursos de engenharia, por exemplo, que exigem uma dedicação exclusiva.

Gestão. Questionado sobre o Orçamento de 2016, apresentado pelo governo com um déficit de R$ 30,5 bilhões, o secretário do MEC afirmou: “É falso dizer que não haverá impacto, mas isso não paralisa os esforços que vêm sendo desenvolvidos. A oportunidade que se abre neste momento é de criatividade”.

Lucchesi apontou que o Brasil investe quase 6,6% do Produto PIB em educação, mais do que alguns países desenvolvidos e dentro da média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. “Temos uma enorme deficiência de qualidade na educação, mas o avanço precisa ir além da questão alocativa. ”